quinta-feira, 24 de julho de 2014

Pensamento do dia

Uma coisa que me intriga há muito tempo: os balneários.

O balneário da minha equipa não me preocupa. Preocupa-me um balneário em particular, bem como, em geral para todos os balneários, me preocupa a teoria que subjaz à divisão dos balneários em mulheres/homens.

A divisão que a sociedade impôs, onde se conduzem mulheres para a direita e homens para a esquerda quando toca a hora de vestir, foi feita com base no género (critério) e fundamentada pelo facto de estes géneros opostos se atraírem (fundamento), pelo que se entendeu que, quando se abrem braguilhas, fecham-se portas.

Porque a atracção existe, o pudor, os bons costumes, a prevenção e a segurança terão sido as razões para levar a que esta decisão se efectivasse e se separassem os sexos opostos.

- O fundamento que conduz a esta separação é, portanto, a atracção entre homens e mulheres, logo, pode-se dizer que o fundamento é a orientação sexual das pessoas.

- Por seu lado, o critério, o qual resulta da aplicação do fundamento, é tão simplesmente, fazer a triagem entre quem é homem e quem é mulher.

No entanto, hoje em dia não se pode ignorar que também existe atracção dentro do mesmo sexo. Cada vez mais!

Então, fará ainda sentido continuar a separar as pessoas cegamente pelo órgão genital, quando o que sempre as separou era, na verdade, a sua orientação sexual?
Se o fundamento (orientação sexual) para a separação dos balneários se mantém, mas esse próprio fundamento aplicado de pessoa para pessoa é hoje diferente, não será necessário actualizar o critério?

Há, neste momento, muitos gays (de ambos os sexos) a vestirem-se e a tomarem banho nos balneários do sexo pelo qual estão atraídos. Acho isso injusto. Primeiro, porque as cautelas com o pudor e os bons costumes estão ameaçadas e depois porque eu nunca tive a oportunidade de tomar banho num balneário feminino.

Quem devia pedir igualdade são os heterossexuais. Nós é que estamos em desvantagem.

Basicamente o que quero dizer é: se não me querem meter no balneário das mulheres,  porque acham isso incorrecto, tenho pena, mas ao menos tirem-me os gays do meu balneário e tragam para cá as lésbicas que se despem nos balneários femininos por esse país fora.

Pensem nisso!

Quanto ao único balneário em particular que me preocupa, falo, evidentemente, do balneário do Ginásio Clube Português. Em mais nenhum lado vi tanta concentração de homem velho descaradamente nu. É custoso ver estas carcaças atacadas em força pela gravidade, passearem-se orgulhosa e desprendidamente despidas. Nunca percebi porque razão os velhotes fazem questão de fazer a barba completamente nus. 

...é que há aquela ligeira inclinação final para o espelho a ver se o barbear está completo. Totalmente desnecessário.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A ditadura da Partilha

Nada tenho contra o André Sousa Bessa. Muito pelo contrário. Foi meu colega de curso durante um par de anos e, apesar de ter perdido o contacto com ele após a faculdade, tenho do André a melhor das impressões. Tinha defeitos - um tripeiro dos sete costados... -, como todos, mas sempre vi nele uma pessoa com uma inteligência muito acima da média que coleccionava amigos por onde passava. Um atestado de qualidade se tal se pode dizer de uma pessoa. Não é por isso o André, cuja morte muito me impressionou, que me traz aqui, mas sim a reacção à sua morte. 

Nesta versão do mundo em que vivemos começa a reinar a ideia de que quanto mais privados são os momentos maior é a necessidade de os expor. A "Partilha", o acto de partilhar, virou uma obsessão nacional (mundial?) e nem mesmo o luto mais profundo, aquele que vai contra todas as leis da natureza, a luto pela morte de um filho foge a essa regra. Logo no dia seguinte à morte do André fomos brindados com uma reportagem na TVI da missa de corpo presente do André. Não se tratava das clássicas entrevistas à porta da igreja e pedir um testemunho (sempre elogioso, como as circunstâncias exigem) sobre o falecido. Não. Desta vez a reportagem foi sobre a missa em si. As câmaras estavam dentro da igreja a filmar a pobre da Judite de Sousa num estado de completo desnorte e desespero (só mesmo esse desnorte pode explicar que se autorize uma televisão a filmar uma cerimónia tão privada quanto esta). Dei por mim a mudar de canal por não querer violar a privacidade daquela gente. Senti-me ridículo mas fez-me pensar. Ao que isto chegou. São os supostos violadores da privacidade alheia que se vêem obrigados a defender essa mesma privacidade.

Depois vem o facebook e os incontáveis e intermináveis testemunhos de família, amigos, conhecidos, etc. É nestas alturas que eu me vejo a concordar com quem ainda não se rendeu às redes sociais. Sou um pró-facebook (o que quer que isso queira dizer) convicto e, embora seja mais um utilizador passivo do que propriamente um furioso dos "status updates" vejo nas redes sociais grandes vantagens, sendo a principal manter-nos em contacto, ainda que virtual, com as pessoas de quem gostamos mas que, por impossibilidade física e temporal, não vemos com a frequência que gostaríamos. Acaba por ser um sucedâneo do contacto físico por ridículo que isto possa soar (e soa).

Mas nestes momentos, o facebook mostra-nos a verdadeira bestialidade do ser humano. A quantidade de posts de gente que se quer associar ao luto de uma mãe é obscena. Dou por mim a questionar o propósito de cada poema ou montagem que os enlutados amigos publicam e não consigo encontrar nenhum que não seja egoísta/narcisista. Porque a Partilha (assim, com "P" maiúsculo porque se trata já de uma instituição) deveria ser isso mesmo. Deveria ser altruísta e generosa, por ambicionar que outra pessoa usufrua de algo que nós achamos que merece ser usufruído. Não é o caso neste tipo de posts. Aqui partilha-se o luto por surreal que isso possa parecer. Aqui partilha-se a morte. Aqui diz-se: "eu também o conhecia e estou muito triste". Aqui ambiciona-se a pena. Não se homenageia nem se conforta quem sofre (qualquer mensagem privada à mãe do André ou um ramos de flores cumpririam bastante melhor esse propósito). 

Há cerca de um ano, aquando da morte de alguém próximo de amigos meus e da subsequente avalanche de "Rest In Peaces" virtuais, um querido e saudoso amigo, no seu jeito de estar sempre contra a corrente, comentava comigo que esta "martirização social" o fascinava. Suponho que "fascínio" seja uma palavra com um significado suficientemente abrangente para incluir o que sinto nestes dias ao passear pelo facebook. Mas não seria seguramente a palavra que eu escolheria.

terça-feira, 24 de junho de 2014

o horror! (parte 2)


Encontrar coisas destas nas redes sociais enche-me o dia. No fundo, acho que é apenas para estes pequenos momentos que deambulo pelo facebook. Qual mineiro do século passado, peneiro sem parar, até que, muito de vez em quando encontro no meio de todo o cascalho uma pepita do tamanho de um punho de um recém-nascido. O êxtase é total. Nem sei por onde começar com esta preciosidade. Talvez pelo principio (duh!) em que esta pessoa nos pergunta se no outro dia alguém lhe perguntou o que mais lhe perturbava no mundo. "Diz-me uma coisa: sabes se no outro dia alguém me perguntou o que mais me perturbava no mundo?" Brilhante! Depois, será que alguém lhe fez mesmo esta pergunta? Yeah right.... Mas a minha parte preferida talvez seja o "naturalmente". "NATURALMENTE que o que mais me perturba no mundo é a desonestidade intelectual... Duuhhh!! Que pergunta tão estúpida!" A pergunta é de facto estúpida, mas foda-se!, a resposta dá uma cabeçada à caixodré na pergunta se formos a comparar níveis de estupidez. Assim de repente lembro-me de tanta coisa que me perturba tão mais que do a desonestidade intelectual... Fome, guerra, gordas de leggings, miséria, Brunos Pratas, etc. Tanta coisa que é claramente perturbante mas que não dispõe do glamour da desonestidade intelectual. A desonestidade intelectual é algo que, sendo perturbante, obriga o leitor a pensar, a reflectir, sobre os seus malefícios. Uma pobre criança do Darfur não dispõe dessa capacidade. Haveria mais a dizer deste trecho de ouro mas tudo o que eu diga fica aquém das letras acima. Vou reler.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

dead men talking

O Blank On Blank é o site de uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo, em poucas e manifestamente insuficientes palavras, é manter vivas as palavras de ícones culturais que, por este ou por aquele motivo, nunca chegaram a ser conhecidas. (Há uns meses trouxe aqui um trabalho semelhante que a Atlantic está a fazer mas que, infelizmente, parece ter-se perdido na enormidade da tarefa que se propunha desempenhar. Já há uns meses que não vejo qualquer atualização do trabalho.) O Blank On Blank pretende ser a ponte entre jornalistas e público - o que não deixa de ser surpreendente, porque os jornalistas, eles mesmos, é que deveriam ser a ponte, mas adiante. O que é facto é que estes gajos se propõem a pegar em gravações de entrevistas antigas que jornalistas (sobretudo estes, mas não só, calculo) tenham em seu poder, tratá-las, divulgá-las e finalmente, fazendo-as acompanhar de umas animações castiças que acrescentam um certo cachet às palavras ditas. Alguns vídeos serão mais interessantes que outros com certeza, mas entre gente tão diferente como Heath Ledger, Grace Kelly, Johnny Cash, Tupac Shakur ou Fidel Castro haverá por certo algo digno de ser visto/ouvido. Chegou-me ao ecrã pela voz de Phillip Seymour Hoffman. O único que vi até agora.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Menos!

Gosto do Belanciano. Não adoro o Timberlake. É, mais do que uma questão de gosto, uma questão de estilo. De ambos. Vítor Belanciano é o jornalista de música do Público que, além de perceber da poda (ou seja, de música), escreve bem que se farta. Timberlake é aquele gajo que vocês sabem. Não aprecio o estilo musical - seja ele qual for - mas reconheço-lhe tremendo mérito por chegar onde chegou e, mais do que isso, sempre apreciei as suas prestações no grande ecrã (embora, agora que penso nisso, nenhuma delas de grande nível de dificuldade). Hoje, Belanciano, a propósito de Timberlake, escreve o seguinte:

"Assistir a um concerto seu é ver-nos passar, de uma só vez, pelos olhos e ouvidos, Michael Jackson, Prince, Marvin Gaye ou Frank Sinatra, num encadeamento do passado soul, funk ou swing, com o apelo contemporâneo de algum hip-hop e R&B pelo meio, embora nunca consiga deixar de ser ele, a ex-celebridade juvenil que se tornou num performer de apelo multigeracional. "

Foda-se Vítor. Não te terás excedido um pouco? Não esperava uma crónica em modo "pita histérica" vindo de ti.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

De Niro


Nunca consegui levar a sério uma personagem de De Niro que chorasse. Ver De Niro a chorar sempre me pareceu forçado. De Niro personifica o old school como nenhum outro (desculpa Clint, desculpa) e nesta entrevista é curioso ver como duas facetas de um dos maiores atores da sua geração convivem de forma tão clara. Por um lado temos o De Niro que todos conhecemos e admiramos: I like things that don’t change. I like consistency. Constancy. People look forward to tradition, they come back, it’s still there, nothing’s changed. Like when you go to a certain restaurant and you go back, and all of sudden it’s changed because they hired a new chef. If it’s not broke, don’t fix it. Passadas duas ou três frase deparamo-nos com um De Niro que se desmancha a chorar com uma pergunta: I get emotional. I don’t know why, justifica-se, como que se apercebendo que estava a mostrar algo que julgávamos impossível. É, em primeiro lugar, por isso que esta entrevista é interessante. Porque nos mostra um De Niro diferente. Vulnerável. Mais humano. Em segundo lugar porque nos dá a conhecer um projeto que virá a público em breve sobre a vida e obra do seu pai.