terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

pós-Michael Sam

É um tema que está cada vez mais na ordem (desportiva) do dia: a homossexualidade e o desporto profissional. Até hoje a ideia que reina é a de que são dois mundos incompatíveis. Não porque haja incompatibilidades de facto mas porque, simplesmente, não havia até há pouco tempo registo de um atleta de um desporto profissional relevante que fosse assumidamente gay. Ninguém no seu perfeito juízo pode defender que não há gays a praticar desporto profissional ao mais alto nível, mas o facto de não haver casos que comprovem essa inevitabilidade ajuda a desconstruir a ideia de que vivemos já num mundo completamente tolerante com a homossexualidade. 

No mundo do desporto as coisas não são bem assim. O desporto caracteriza-se na maioria dos casos pela virilidade e pela agressividade e acaba por ser compreensível que os próprios gays encarem a homossexualidade como mais um obstáculo que teriam que ultrapassar caso se assumissem. É um entendimento que se baseia em pressupostos rudimentares, de acordo, mas não deixa de ser compreensível. Ninguém precisa de mais essa barreira para ultrapassar no caminho para se ser um atleta bem sucedido.

No último ano surgiram casos que pretendem ultrapassar esta barreira e fazer com que o desporto acompanhe o resto do mundo no caminho para a tolerância, primeiro, a aceitação, depois, e a indiferença, por fim. Quando for indiferente se determinado atleta é gay ou não, então aí estaremos na etapa final do caminho que os gays ainda têm de percorrer. 

Há cerca de um ano, Jason Collins saiu do armário. O assunto foi tratado com as honras que o facto de ser o primeiro atleta em atividade (há vários casos de ex-atletas que se assumem depois da carreira acabar) merecia e teve eco em todo o mundo. Mas o que o caso de Jason Collins não trouxe foi um efetivo teste à mentalidade dos agentes desportivos, sejam eles jogadores, treinadores, scouts, ou outros. Jason Collins nunca foi um jogador preponderante na NBA e, quando se assumiu, fê-lo já no ocaso da carreira impedindo que se pudesse aferir se houve ou não aceitação.

Esta semana foi Michael Sam a sair do armário e a rebentar com a porta atrás dele.  Michael Sam arrisca-se a ser "O" nilas que vai tirar tudo a limpo. Por várias razões: a) porque é bom; b) porque está a entrar no prime da sua carreira; c) porque joga o mais popular desporto dos EUA; d) porque dentro de umas semanas integrará o Draft de 2014 da NFL. Será o evento por excelência para saber se o desporto profissional (no caso, o futebol americano) está preparado para se assumir como "gay friendly". É aí que os clubes avaliam todas as características de um jogador e o escolhem ou não. Antes de se assumir Sam era apontado como um jogador muito promissor que iria com certeza figurar nas primeiras rondas do draft. Uma vez assumido, vai ser interessante ver se, quando e por quem é escolhido. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

o inconseguimento de não me encanitar

Pensei muito sobre o que vou dizer a seguir. Não se trata de uma afirmação dita de forma precipitada ou sem uma medição exata das consequências que a mesma inevitavelmente trará. Não me lembrei disto hoje. Não me lembrei disto ontem. Durantes os últimos meses por mais de uma dezena de ocasiões dei por mim a tentar contestar o que vou dizer a seguir. "Não. Não pode ser possível... Tem de haver alguém...", suplicava eu sempre que dava por mim a pensar aquilo que vou dizer a seguir. Mas não. É mesmo verdade. O que vou dizer a seguir é, de facto e de direito, o que eu sinto.

A Assunção Esteves é a pessoa que mais me irrita encanita à face da terra.

Sim. É verdade. I said it. Na verdade nem se trata de irritação. A irritação pressupõe que a causa é algo com importância. Um gajo irrita-se quando está a trabalhar num documento de word durante umas horas e, sem querer, apaga-o. Aí há irritação. O documento era importante e agora vou ter que o fazer todo outra vez. No caso da Esteves trata-se de "encanitação". A Assunção Esteves encanita-me.
O encanitanço, parecendo que não, é mais irritante (ou encanitante) que a irritação. Primeiro porque o encanitanço é, desde logo, mais prolongado no tempo. A irritação é súbita e poderosa, mas sempre temporária. O encanitanço não. O encanitanço ataca-nos quando menos esperamos e os seus efeitos são duradouros, além de repetíveis ao longo do tempo. Depois, o encanitanço é causado por coisas aparantemente inofensivas, o que só encanita mais, porque um gajo dá por si sem ar com merdas ridículas. E nada é mais ridículo do que a imperiosa necessidade que Assunção sente sempre que abre a boca de recorrer a vocabulário elaborado/inexistente.
Estou em cima disto desde que a senhora foi eleita Presidente da Assembleia da República. No discurso inaugural debitou sílabas que nunca se tinham encontrado na vida. Nesse dia o sangue subiu-me à cabeça instantaneamente e desde então que sempre que me vejo obrigado a ouvi-la suo das mãos. É uma chatice que, por si só, já me encanita

Inconsigo deixar de me encanitar.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Long live the hooligans

Digam o que quiserem. Que são selvagens e facciosos. Que são selvaticamente facciosos. Que são racistas. Que só lá estão para armar confusão. Que bebem demais. Que comem demais. Que são malcriados, rudes e ruins. Chamem-lhes hooligans, chamem-lhes fanáticos, chamem-lhes o que quiserem. Mas experimentem tirá-los do futebol e gostava de ver o que sobra.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Casa comigo Alfonso e, de caminho, co-adoptamos o Ed Harris



Que obra de arte foda-se! Falta-me ver em 3D. Diz-se por aí que é melhor ainda. Bullshit, digo eu.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio da Silva Ferreira (1942 - 2014)

“Foda-se. O Eusébio morreu”. Foram as primeiras sílabas que saíram da minha boca no domingo de manhã. Que eu tenha dado por isso, durante umas horas foram as únicas sílabas que disse. O estado de semi-consciência que caracteriza o recém-acordado e a escuridão que ainda se abatia pelo quarto tornavam a guerra contra a claridade do ecrã do telemóvel mais difícil do que em outros dias. Aos poucos a consciência acabou por levar a melhor sobre a sonolência. A luz eventualmente entrou no quarto. A escuridão, essa, já não me largou. “O Eusébio morreu. Foda-se.”
É esquisita esta sensação. A sensação de tristeza pela perda de alguém que não conhecemos. Não conheço Eusébio. Infelizmente nunca privei com ele, nem tão pouco tive o privilégio de assistir aos seus feitos no relvado. A minha vida nunca registou qualquer episódio de maior ou menor felicidade causado por Eusébio da Silva Ferreira. Não me orgulho disso, mas também não tenho grande culpa. Invejei sinceramente o homem que a certa altura, de olhos molhados de orgulho e saudade, dizia para o microfone que foi “a todos os jogos que o Eusébio jogou pelo Benfica”.
O Eusébio que eu conheço – aquele que a coincidência das nossas vidas me permitiu conhecer – é um senhor simpático, símbolo maior do meu clube do coração, mas é pouco mais do que isso: um senhor simpático. Não sei o número exato de senhores simpáticos que já conheci ao longo da minha vida. Desconfio que tenham sido muitos. No entanto, não me vejo a ser invadido pela tristeza como ontem fui logo pela manhã, se o senhor Gonçalves do café em frente da minha antiga casa - que faz uns panados daqui! – bater a bota um dia destes. Ficarei triste com certeza porque tenho o senhor Gonçalves em muito boa conta, mas pronto. Ficará por aí.
É esquisito. É desconfortável. O luto deve ser isto.

Quem me conhece sabe que sou uma espécie de fanático soft do Benfica – o “soft” é porque mesmo sendo um tarado que organiza sempre os fins de semana em função do calendário do Glorioso, nunca alguém me avistou empoleirado nas redes de uma qualquer bancada de um qualquer estádio europeu em tronco nu a gritar profanidades. Não sou esse tipo de fanático. E sendo um fanático do Benfica, é natural que a morte de Eusébio suscite reações em mim. O respeito pela memória, pela história. A curiosidade em saber mais da pessoa, do jogador. A vontade de ir prestar homenagem. São tudo reações normais em alguém que vive o Benfica como eu vivo. O que me deixou meio desorientado foi a sensação de estar perdido no meio de sentimentos que nunca pensei experimentar no momento da morte de Eusébio. O desnorte em que aqueles instantes iniciais do dia me fizeram mergulhar acompanhou-me o resto do dia. O espanto da notícia me ter afetado daquela maneira parece ter-me impedido de reagir como reagiria não fosse o inesperado da reação. Não me faço entender pois não? Pois. Welcome to my world.
A meio da manhã de ontem, estava já eu agarrado à televisão, recebi uma mensagem do meu pai – fanático caçador, mas não mais do que curioso do futebol – a dar a notícia de que o presente de natal que lhe tinha dado para a caça estava a servir na perfeição. “Boa Pai! Fico contente neste triste dia…”, disse eu, de olhos ainda e sempre postos na tv. “Muito triste. Até chorei…”, escreveu o meu velho de volta. É isto. O meu pai chorou com a morte do Eusébio. E o meu pai é como todos os pais. Não chora com merdinhas. Chora com a morte do Eusébio.
Eu não chorei. Confesso que andei lá perto hoje à hora de almoço quando o carro onde se encontrava Eusébio dava uma volta ao relvado da Luz, molhado de um chuvisco incessante e de uma neblina que pairava sobre o verde da relva. Nos ecrãs um vídeo com os melhores momentos do Pantera Negra era acompanhado do inevitável Andrea Bocelli. Não foi fácil segurar a lágrima confesso. À minha volta outros não fizeram esse esforço. Bem estiveram eles, digo eu.

A morte de Eusébio chora-se. E eu só percebi isso tarde demais.